Da janela posso ver o cemitério sem o ver. Quer dizer, abarco os ciprestes, os carros funerários seguidos pelo séquito habitual.
Vejo o muro branco e, segundo me dizem, aquela construção é um crematório. Mas não consigo ver as pessoas. O muro termina de repente tapado por estruturas e, por isso, sei do cemitério pelos ciprestes. E de vez em quando, oiço salvas de tiros. Também não conheço o suficiente para saber a patente de quem morreu. E ao olhar a janela penso na frase de um filósofo alemão: “Não existe passado, nem futuro, apenas um enorme presente.”. As voltas que a nossa cabeça dá, com as ideias a tecerem teais, a emaranharem-se umas nas outras e a levarem-nos sabe-se lá para onde.
Foi a frase que veio ter comigo à minha memória, quando olhei a janela; ou foi eu que a procurei, para fazer sentido à vista da minha janela? Que importa!
O que realmente interessa é esse imenso presente, essa obrigação de vivermos o hoje, para que não nos venhamos a arrepender, no futuro que não existe, daquilo que queríamos fazer e não fizémos.
Devíamos escrever nos cadernos dos dias, nas nuvens espalhadas pelo céu, na palma da nossa mão: não, não me vou contentar!
E dizer que não a tudo o que nos afasta do caminho. Mesmo que não saibamos qual é-
Luisa Castel-Branco